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A boca do tempo se estreita na noite escura do trem rumo a Tróia.
O filho está sentado na mão da mãe, de costas para o pai. Suas fontes de energia sonolentas se apagaram — ele está prestes a partir para férias de barco. Seus olhos carregam a velhice de um homem de duas vidas, alguém que já viu, na pálpebra do filho, a mesma cor que outrora brilhou em sua juventude, uma juventude que pertenceu à mãe — e já foi esquecida.
Agora, ele se encontra no lugar ideal para esquecer a filha, repentinamente, enquanto embarca em mais uma viagem de trabalho.
Os olhos do tempo, ocultos sob a ponte do destino, assistem a uma jornada que nunca foi de volta — sempre de ida. O corpo do tempo fere tudo o que toca, e em seus sonhos, ou no que quase deixou de ser sonho, a viagem tornou-se uma traição infantil, uma chance mal disfarçada de esquecer os próprios sentimentos. Uma fuga para um país desconhecido.
Ele parece forte — o homem do país. Tem a cabeça erguida, os passos firmes, preparado para atravessar terras estranhas em busca de esperança. E acredita encontrá-la, como se aquele país fosse uma primavera eterna.
Ele se sente vivo. A viagem soa nova. Como se sua pele fosse a alma que ele sempre buscou.
Na praia, o sol ainda em alvorada, ele se transforma em alguém que já viu a felicidade surgir de um olhar.
As coisas boas, as coisas ricas, aquilo que o tempo crava no corpo — e o corpo do tempo insiste em ferir — tudo se mistura na brisa da manhã.
Mas ele a está perdendo.
Perde a manhã como quem perde um trem, como se a praia fosse um carro em movimento, e ele tivesse que correr para alcançá-lo.
Descobre, então, que aquela traição infantil, antes tida como uma oportunidade de esquecer sentimentos, nunca foi tão distante quanto imaginava.
E novamente, ele parece forte.
Parece o homem do país, aquele com a cabeça do país, aquele preparado para reencontrar esperança.
Mas talvez não a encontre.
Pois ele mesmo é o seu próprio país.
E será sempre ele mesmo.
O filho, esse, está só.
Sozinho.
Como se a viagem fosse — sempre — uma viagem de ida.
O tempo passa. Passa como dor.
E o homem começa a sentir a dor brotar de dentro do corpo.
A dor de que o tempo passa.
De que a vida não é para sempre.
E que há dores que não cessam — porque são as únicas coisas verdadeiras.
Ele precisa trabalhar.
Pagar dívidas.
Manter o ritmo.
Mas a dor persiste.
Como se fosse o próprio tempo, escondido em dias de sol poente.
Mesmo assim, ele começa a sentir coragem.
A coragem de voltar.
Voltar para o país do sol.
Mas não encontrará esperança.
Porque ele é o seu próprio país.
Ele é o homem do tempo fixo.
O homem do país.
Aquele que viaja em busca de si e retorna sabendo que não há retorno possível, apenas ciclos.
E o filho continua só.
Sozinho.
Como se a viagem fosse — irremediavelmente — uma viagem de ida.