Futuro do Cinema Brasileiro na Era da Automação


<h1> O Poderoso Chefão e Cidade de Deus não existiriam hoje </h1>

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Filmes & Séries

Na era em que os computadores são capazes de reproduzir filmes em suas versões integrais ou nas variações mais simples, alguns cineastas brasileiros acreditam que apenas os filmes nacionais mais conhecidos internacionalmente serão preservados para sempre — normalmente aqueles considerados “bobos” de um breve período conhecido por muitos como a era do “Golden Boy”. Enquanto isso, a maioria das outras obras tende a desaparecer, como se fossem diálogos abafados no meio de um incêndio. Para o cineasta e especialista em tecnologia Guilherme Stockler, essa visão é limitada e até ridícula.

Stockler acredita que o nível de complexidade dos algoritmos de reprodução automática já é suficientemente avançado para permitir um espaço expressivo considerável aos produtores. Para ele, os maiores problemas enfrentados atualmente pela indústria cinematográfica não estão na escassez de recursos ou no domínio da tecnologia, mas sim no engajamento do espectador. Ele afirma: “Um filme pode ser considerado como um meio para o espectador se sentir na realidade, enquanto um jogo é um meio para o espectador se sentir imerso”.

Atualmente residindo na Califórnia, Stockler iniciou seu contato com a computação ainda no ensino médio, em uma escola pública de São Paulo, onde desenvolveu um interesse especial por estruturas matemáticas. Na época, criou junto a um amigo um projeto usando uma máquina virtual para executar experimentos estatísticos sobre jogos de bingo. Mais tarde, ingressou no curso de Ciência da Computação na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. Durante esse período, transformou seu próprio computador em um laboratório pessoal, criando um programa chamado “Algorea”, voltado para o estudo do estilo de vida de jovens holandeses. Apesar da inovação, o projeto não atraiu o interesse da indústria.

Após essa fase, Stockler retornou ao setor de games, onde trabalhou como desenvolvedor de software independente e colaborou com projetos renomados como Tomb Raider e The Sims. Em 2003, produziu seu primeiro filme, a partir de um vídeo desenvolvido para um jogo de computador. A obra contava a história dos filhos de pescadores na Bahia. Nesse processo, ele percebeu que estava transformando o conteúdo em um filme, utilizando as tecnologias de reprodução automatizada para dar vida às suas narrativas. Desde então, Stockler continua atualizando seu software “Reel FX” e atua como consultor de tecnologia para estúdios e produtores independentes.

Para Stockler, os desafios enfrentados pelo cinema brasileiro hoje têm mais relação com as barreiras industriais do que com as ferramentas tecnológicas: “Estão tratando a tecnologia como um inimigo que invade o território do cinema, quando, na verdade, ela pode ser uma aliada criativa”. Ele acredita que o público está perdendo a capacidade de se identificar emocionalmente com o que vê nas telas e de usar o cinema como ferramenta para refletir sobre seus próprios dilemas. “Se continuarmos assim, as pessoas vão começar a lembrar do cinema apenas como algo que existia em quantidade, e não em qualidade — e isso é uma perda para todos.”