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Camila persiste em uma discotécnica imaginária, quase infinita, com ritmo contagiante. Desce um pouco, olha para trás e, de repente, se vê em uma grande sala de dança antiga — paredes azul-claro, um balcão de bar sujo, luzes escuras escorrendo pelo teto como tinta. As pessoas dançam, como se desmaiassem ao redor do balcão. É domingo de manhã. O estômago se revira, talvez pela ressaca, talvez pela sensação de que o caminho de volta para casa é mais mental do que físico.
Não há muito o que prever do que está por vir, mas Camila se apega à única certeza: a música — essa que a acolhe com seus quarenta e poucos anos, como uma amiga que nunca deixou a pista.
Alguns sons são familiares, outros não. Mas todos ecoam com trocadilhos ousados e performances um tanto sensuais, repetidos por um público sonolento que, mesmo assim, responde. Camila veste uma camisa manchada, talvez de vinho, talvez de sangue imaginado — e sente o estômago embrulhar de novo. Tudo isso parece ter acontecido há mais de 30 anos. Era outro tempo. Na escola, as meninas usavam maquiagem logo cedo. Já pensou? Hoje, poucas ainda fazem isso.
As meninas daquela época sentavam em grupo, riam, puxavam as calças até a cintura e se mostravam sem saber. A estética era diferente, mas a música... ah, essa permaneceu.
O que as divas pop realmente mudaram na cultura dos últimos 30 anos? Teriam sido apenas catalisadoras de um movimento que já estava por acontecer? Ou foram elas mesmas o epicentro da transformação?
Camila, perdida em pensamento, nota que fora dos tempos de disco já não há muito com o que sonhar. A festa parece ter virado intervalo. A pausa. A música, agora, parece o único fio condutor entre o passado e o presente.
Ela troca a pista pela cama, ouvindo uma última canção, como num filme romântico de domingo de manhã. A luz do dia começa a invadir o quarto. A parede, antes opaca, agora reflete versos que ela memorizou nas últimas horas. A história continua — a mesma história — recontada geração após geração, em camisas que já não vestem futebol, mas ideias.
Camila adormece. A música continua tocando.
Camila e a Pausa entre as Coisas
Camila vê o mundo por um prisma estranho. É o estilo de vida — essa pausa entre as coisas — que ela começa a perceber. E é aí que entra a música, preenchendo o silêncio antes que a pausa se torne insuportável.
A música inova, as personalidades fogem da norma, e Camila reencontra nela um reflexo do passado. Os dias, as semanas, os meses e os anos têm uma constante: a trilha sonora da longa noite.
As divas pop foram as primeiras, mas não serão as últimas. Cada uma representa uma era, uma estética, um impacto. Lady Gaga, com suas costuras dramáticas e múltiplos alter egos, cria mundos próprios. Madonna, desde os anos 80, usava a moda como linguagem e o som como ferramenta de revolução. Os sintetizadores soavam como ícones em neon, e as letras — afiadas — marcaram época.
O tempo entre uma coisa e outra, o intervalo, é a única coisa que elas não transformaram. Ainda assim, elas o ocuparam com beleza, atitude e intensidade. Transformaram a pausa na pista de dança da existência.
A música continua. A mesma? Talvez. Mas as coisas, ah, essas continuam mudando.